SONORA e essa força de me ver compositora

SONORA e essa força de me ver compositora

Por que ainda precisamos de um festival de mulheres compositoras? Ou, por que a gente grita?

Em 2017 tive a alegria de participar pela primeira vez do SONORA Floripa e, confesso pra vocês, não imaginava a transformação pela qual minha arte, minha música e eu mesma passaríamos naquele evento. Correndo com minha filha no colo, carregando instrumento, articulando uma rede de apoio pra que eu pudesse subir naquele palco enquanto minha filha (com 3 aninhos na época) pudesse estar lá comigo, dançando numa alegria imensa minha música.

Não tem a ver com a minha filha mas tem também porque ela mora aqui na minha realidade. E confesso que na hora que ela nasceu de dentro de mim eu já me senti muito mais forte. Ao olhar pra trás vejo as pedras que quebrei pra construir essa fortaleza imensa que eu chamo de eu, e que por mais portas abertas e escancaradas, precisei plantar alguns espinhos em lugares onde só eu posso acessar. Quando eu descobri que era capaz de colocar uma pessoa no mundo, com toda a força que eu fiz pra que ela saísse de dentro de mim, pela primeira vez senti que ninguém mais teria o direito de falar comigo do mesmo jeito. E que eu, no meu poder, que já tinha sido meu desde sempre, precisava encontrar um jeito de dizer pras pessoas com calma e com cuidado que dali em diante eu não aceitaria mais um milhão de comentários me enfraquecendo na sabedoria que a natureza me deu.

Daqui do meu ponto de vista, as desigualdades e o desrespeito não acontecem porque as pessoas são más e muito menos é culpa exclusiva dos homens. Não quero dar troféu aos queridos que já entenderam e estão fazendo um esforço sobrenatural para desconstruírem suas certezas e suas piadinhas. Acho que a vida se encarrega de premiar as pessoas que tem atitudes legais com experiências mais legais ainda. Dialogar, conversar sobre as coisas nos aproxima. É na conversa que a gente se conhece e é assim também, trazendo o pensamento pras palavras que a ciência evolui dia após dia. Enquanto isso alguns de nós ainda resistem em olhar pra essa e outras questões parecidas e resumem tudo de forma simplista: é mimimi.

Eu enquanto mulher, enquanto compositora, enquanto mãe, enquanto pessoa! Preciso ser ouvida. E vamos lá lembrar da imensa dificuldade que alguns homens têm em entender quando a mulher diz “não”. Ou quantas vezes tentamos falar e somos interrompidas. E quantas piadinhas ridículas pra nos deixar sem graça temos que ouvir e de preferência não responder por que às vezes é uma relação da qual a gente não pode fugir (chefe, familar, etc). Eu fiz um textão esses dias falando especificamente sobre algumas experiências desagradáveis na música e teve quem veio me questionar sem se ocupar em entender o que eu tinha dito. Não importa, eu não deveria dizê-lo.

E nos encontramos. Um monte de mulher compositora em um festival idealizado e organizado por mulheres, e sabe o perigo que há nisso? Conversamos. Trocamos ideias fora da programação. Demos entrevista e escutamos, escutamos umas às outras. Ficamos tão fortes em nos escutarmos. E nessa hora eu me pergunto, por que querem que a gente não fale? De onde vem essa repulsa em olhar para as coisas como são e comentá-las. Não, “sorria e siga adiante e deixe que cada um encontre suas forças”. Por que? Se praticar a generosidade e compartilhar sentimentos nos torna tão lucidas! Tão donas da nossa sabedoria.

Falei no meu textão para que as mulheres lessem e de alguma maneira percebessem algumas coisas e pudessem ficar mais fortes com minhas palavras. Mas comecei falando para os homens, contando pra eles sobre uma prática bem machista que eles não percebem e que alguém vai ter que chegar pra eles e dizer: “amigo, isso aí, esse jeito como você fala, você está sendo machista”. A gente não quer viver sem vocês! Não é isso.

Dona Ivone Lara passou a vida escrevendo música sem poder assinar seu nome pois era mulher. Anastácia, compositora de “Xodó” (que falta eu sinto de um bem, que falta me faz um xodó) é quase sempre esquecida quando qualquer um pergunta de quem é essa música, mas ninguém esquece seu parceiro Dominguinhos. Feira de Mangaio é do Sivuca, mas quem lembra que é da Glorinha Gadelha também. Que importa se naquela geração essas compositoras na maioria das vezes cumpriam ainda o papel de esposa e faziam tudo para garantir que o homem pudesse sair com a fama de bonito. Nem preciso descrever as milhões de tarefas que são vistas como funções da mulher desde criança enquanto os homens podem se debruçar no seu instrumento por horas a fio.

Por que não libertar a todos! Dar de presente a autonomia aos homens: eles são capazes de limpar seus próprios rastros. Liberdade às mulheres, que podem deixar tudo pra depois e ir estudar um pouco no violão. Dar voz e ouvidos atentos à mulheres e homens, pra que a gente consiga conversar.  Eu desejo um SONORA cheio de homens músicos querendo conversar sobre isso. Destruindo um por um os muros obsoletos do machismo. Não servem pra nada. Sua defesa não é necessária. Não precisa do discurso de somos todos iguais. Não somos. SOMOS TODOS DIFERENTES. Ainda bem. Aqui de dentro do meu coração eu vejo pessoas grandiosas construindo um futuro amoroso. Vamos trupicando mas vamos em frente.

Que a arte nos transforme!

 

SONORA Floripa 2016

Sem comentário

Post A Comment

Fale Comigo