Billie Holiday, feminismos e sentimentos na música

Billie Holiday, feminismos e sentimentos na música

Eu tinha uma questão, fazia teatro querendo ser atriz no cinema. Era cantora querendo ser baixista. Quem sabe assim eu saberia o que fazer com as mãos. Ou pudesse ser discretinha quase imperceptível. Real, natural… Não deu. Fiquei canastrona no teatro e me joguei no exagerado da rua. Estriônica na palhaçaria. Aprendi a tocar triângulo e arroxar no forró, mas adoro mesmo ter os braços livres. Comecei ali, um pouquinho antes, pesquisando a Billie Holiday e seu pouquíssimos movimentos unidos a uma tonelada de sentimento em cada nota.

Louca dentro da roupa com aquela interpretação, Com aquela pessoa dentro da voz. De dentro do meu ascendente em sagitário eu deveria imitá-la, dizia meu orientador de pesquisa de iniciação científica. Um baita! Marcus Mota, um mestre doutor capaz de simplificar o emaranhado dos nossos pensamentos.

Li várias biografias da Billie Holiday com versões diferentes da mesma história e sabia de uma coisa, só uma pessoa com muito peso na bagagem da vida poderia ter aquela voz. Uma série de escolhas e não escolhas das quais a gente toma rasteira o tempo todo. Estudei seus vídeos e seu mínimo movimento quando ainda não sabia que esse tema seria meu TCC, meu Tesão Caprichado Concluindo, meu trabalho de conclusão de curso. Meu vício pra vida.

Criar um texto sobre a vida e obra de Billie Holiday. Desenvolver metodologias para roteirização de espetáculos dramático-musicais. Foi minha pesquisa por um ano. Mergulhei nela.

Essa coisa que algumas pessoas têm de nos tirar o fôlego sem a menor cerimônia. Gosto assim. Cantores que cantam pra mim ou por mim, mesmo que tenha sido gravado antes de eu nascer…

permita-se emocionar com essa expressividade:

Eu amo sua voz e a vida que ainda permanece nesse plano, manifestada. Não sei da metade da história e  nem tenho ideia do sentimento absurdo que é viver o racismo sendo negra. Não sou. Por mais que eu sofra por empatia não sei o que é. Nesse assunto eu só escuto. E só falo alguma coisa se for pra enfrentar a normose em alguns discursinhos racistas querendo ser inocentes.

Mas sei o que é violência contra mulher. Relacionamento abusivo… Tudo que a gente não quer viver mais tá aí na vida, no não que a gente não conta… E é uma droga de se livrar. A droga mais pesada da qual Billie Holiday era dependente era do amor, e quase sempre com homens canalhas. Essa música no vídeo acima fala disso.

A Billie me deu a missão de empoderar as mulheres, dizendo a elas como elas perdem tempo se colocando pra baixo. E como vamos lutar contra o machismo que mora no nosso inconsciente e atua contra nós mesmas nos trazendo insegurança o tempo todo. Precisamos mudar isso. Precisamos reconhecer nossa força e nos livrarmos dessa fragilidade forçada onde nos colocaram.

É o lugar da cantora que tem que ser a bonita do rolê e que, coitada, não entende nada de música. Como que é? Quanto tempo vamos prolongar isso? Pra mim, aqui, minha matéria prima é o sentimento. A musicalidade. A generosidade em compartilhar emoções. E disso precisamos nos preencher, de amor próprio que transborda.

Não tem nada a ver com mexer os braços e rebolar, nem do conhecimento da matemática da música. A voz vem de dentro, de quem a gente é. E de amar o movimento do corpo como ele é. E de amar o corpo onde a alma habita. É linda sua dança. Acredita?

Fique com um trechinho do show em Tributo à Billie Holiday, esse mesmo que aconteceu lá na UnB.

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